Arouca doa peças ao Museu Nacional do Rio de Janeiro para ajudar a repor a sua coleção




O município de Arouca entrega sábado ao diretor do Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro, no Brasil, duas peças de raridade geológica que ajudarão a repor a coleção daquela instituição destruída por um incêndio em 2018.

A cerimónia vai decorrer em Portugal, no referido concelho do distrito de Aveiro, e envolve a oferta de um fóssil de trilobite e pedras parideiras, escolhas que representam as duas formações geológicas de maior valor científico entre o património natural de Arouca, cujo território está classificado pela UNESCO como geoparque devido à particular pertinência de um conjunto de 41 geossítios.

Embora concretizando-se apenas no sábado à tarde, numa altura em que o museu brasileiro está em condições de acomodar em segurança a sua nova coleção, a oferta foi pela primeira vez anunciada em setembro de 2018, cerca de duas semanas após o incêndio, e é a primeira a verificar-se por parte dos 169 geoparque da rede mundial da UNESCO – que, por iniciativa do município de Arouca, se comprometeram a seguir-lhe o exemplo na doação de peças que ajudem a repor o fundo museológico perdido para o fogo.

A presidente da Câmara de Arouca, Margarida Belém, declarou à Lusa que este é, portanto, “um ato de solidariedade e de aproximação para com o Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro”.

A comprovar essa proximidade, o diretor da instituição brasileira, Alexander Kellner, visita este sábado a Casa das Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira, onde se procederá à transferência de posse das peças.

A presidente da câmara realçou que o fóssil de trilobite e as pedras parideiras selecionadas para exposição no Rio de Janeiro “são reflexo do riquíssimo património geológico do território do Arouca Geopark”, mas admitiu que o museu brasileiro ainda tem muito trabalho pela frente até repor perante o público uma coleção idêntica à que perdeu em 2018.

“Queremos que o olhar dos parceiros que integram a Rede Global de Geoparques da UNESCO possa direcionar-se para este museu, que, num golpe de infortúnio, viu as chamas dizimarem, quase na totalidade, o seu importante espólio”, acrescentou a autarca socialista, especificando que o incêndio em questão fez desaparecer 85% dos 20 milhões de artigos que estavam à guarda da instituição brasileira.

A expectativa de Margarida Belém é, agora, que os 169 geoparques da UNESCO possam “unir-se numa onda solidária e fazer renascer das cinzas aquele que outrora foi considerado o maior museu de história natural da América Latina”.

O fóssil de trilobite a entregar a Alexander Kellner tem cerca de 30 centímetros de comprimento e foi encontrado na chamada Pedreira do Valério. Exibe as marcas de uma classe extinta de artrópodes marinhos, pelo que será originário do período situado entre o Câmbrico e o Devónico, na era paleozoica, e terá assim 545 a 359 milhões de anos.

Diversas fontes ligadas à ciência referem que o sentido de visão das trilobites era “extremamente apurado” e que elas “foram dos primeiros animais a desenvolver olhos complexos”.

Quanto ao que a tradição oral designa como “pedras parideiras”, para o museu do Rio de Janeiro foi recolhido um bloco granítico que, também com 30 centímetros de lado, exibe a pedra-mãe de base clara e também o nódulo negro que dela se desprende por efeito da erosão – revestido a biotite, sob um núcleo de quartzo e feldspato.

Essa formação rochosa está formalmente identificada como “Granito Nodular da Castanheira” e, a nível mundial, só está identificada em Arouca. Segundo dados do centro interpretativo instalado na Casa das Pedras Parideiras, ao analisarem-se as moscovites e biotites dos respetivos nódulos, “as datações mais recentes [por tecnologia K-Ar] apontam para idades entre 320 e 310 milhões de anos”.




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