Amnistia Internacional acusa os talibãs de “sufocar” os direitos das mulheres




As condições de vida das mulheres e meninas afegãs estão a degradar-se dia após dia com a repressão “sufocante” dos talibãs, no poder há quase um ano, segundo um relatório da Amnistia Internacional (AI) hoje divulgado.

Depois de capturarem a capital do Afeganistão, em agosto de 2021, e de expulsarem o antigo Governo apoiado internacionalmente, os talibãs garantiram que iam adotar uma postura mais moderada em comparação com a última vez que estiveram no poder, nos anos 90.

Inicialmente, as autoridades extremistas asseguravam que os direitos das mulheres, entre eles o acesso ao trabalho e à educação, permaneceriam intactos, porém foi rapidamente montado um Governo exclusivamente masculino que proibiu as raparigas de frequentarem a escola a partir do sétimo ano, impôs o uso da burca que cobre a totalidade do corpo feminino e restringiu o acesso das mulheres ao trabalho.

A equipa de investigadores da Amnistia Internacional, que participou na elaboração do relatório, analisou a situação afegã durante nove meses e visitou em março de 2022 o país dominado pelos talibãs. 

No terreno, entrevistaram 90 mulheres e 11 meninas, com idades compreendidas entre os 14 e os 74 anos. 

De acordo com o relatório da organização, há casos documentados de mulheres abusadas e torturadas por protestar contra as medidas dos extremistas.

Uma das entrevistadas admitiu ter sido, juntamente com outras mulheres, agredida nos seios e entre as pernas de forma a que ninguém descobrisse as marcas. Entre agressões, um dos talibãs disse-lhe: “Podia matar-te aqui mesmo e ninguém te vinha ajudar”, contou no relatório.

Uma estudante universitária afegã também partilhou ter sofrido choques elétricos nos ombros, face e pescoço, enquanto era insultada pelos extremistas.

Por outro lado, os casamentos infantis também aumentaram desde que os talibãs assumiram o poder, acusa a organização, que identificou casos de matrimónios forçados de membros do grupo extremista com mulheres e crianças.

Este aumento é potenciado pela crise económica e humanitária que assola o Afeganistão e o acesso cada vez mais restrito do sexo feminino afegão à educação e a melhores oportunidades de emprego.

À Amnistia Internacional, uma das cidadãs de uma província central afegã contou que se viu obrigada a casar a sua filha de 13 anos com um vizinho 17 anos mais velho em troca de 60 mil afeganis (aproximadamente 660 mil euros).

Pelo menos “não passará mais fome”, admitiu a mulher.

“Estamos a falar de um Governo patriarcal, com guerra, pobreza, seca e raparigas fora da escola. Com todos estes fatores combinados, era de esperar que o casamento infantil disparasse”, afirmou a diretora da organização não-governamental Too Young to Wed, Stephanie Sinclair, também mencionada no relatório.

“Menos de um ano depois da tomada do poder pelos talibãs no Afeganistão, as suas políticas draconianas estão a privar milhões de mulheres e raparigas do seu direito de levar uma vida segura, livre e gratificante”, disse a secretária-geral da Amnistia, Agnės Callamard.

“Se a comunidade internacional não agir, estará a abandonar as mulheres e raparigas no Afeganistão, e a minar os direitos humanos em todo o lado”, concluiu Callamard, que apelou a que sejam tomadas mais medidas contra esta opressão.

O Afeganistão está mergulhado numa crise económica agravada pela tomada do poder pelos talibãs em agosto do ano passado, que levou ao congelamento de fundos para a reconstrução do país.

O país também tem sido atingido por desastres naturais, como o terramoto que há um mês deixou mais de mil mortos, além de secas e inundações.




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